Description:Introdução de Aníbal Fernandes:«António José Camões, padre (exemplo de homem que o Poder destruiu, em Portugal), ilhéu nascido no Corvo, de pai incógnito (1); ao ano 1815 vigário na vila [sic] de Ponta Delgada da Ilha das Flores e autor confirmado do Testamento de D. Burro (sátira que em verso heróico atinge, muito dura, o carácter, o modo e a simplicidade dos habitantes das Lajes) (2). E agora veja-se:A ilha abalada nas suas conveniências sociais por este volumoso livro de insultos, encadernado em muitas torpezas e cheio de obscenidades (...), libelo acusatório (...), grande tecido de escárneos onde se não perdoa à honra nem ao pudor de indivíduos, e mesmo de certas famílias – ilha insinuada, desvendada em verso nas suas figuras mais populares ou de maior destaque.O Padre Camões levado a tribunal; pronunciado e metido em cela estreita da Ilha Terceira; suspenso das suas funções eclesiásticas apesar de juridicamente absolvido; a braços com os qualificadores do Santo Ofício por mandado do cabido que encontra, nos versos, matéria de censura contra a disciplina e o dogma da Igreja; levado a todas as dificuldades para prover ao seu sustento (que meios patrimoniais não possui).Absolvido, também, no Santo Ofício, o Padre Camões não regressará porém às funções de vigário (o alibi do Capítulo não deixa de ser caridoso: poupá-lo ao ódio do povo e das pessoas respeitáveis a quem ofendera da maneira sobredita), esbracejará numa luta inglória contra o poder estabelecido, desdobrando-se em inúteis requerimentos, esgotando os meios que se lhe oferecem, consumido em paciência. Como instância última recorre ao capitão-general Francisco António de Araújo, figura suprema da administração das Ilhas: não será possível, ao menos, metê-lo na regência da cadeira de Gramática Latina que já exercera por alguns anos com muito proveito da mocidade? Inflexível (...), inexorável por desagravo da moral pública ofendida e decoro das coisas da religião, o general é surdo ao pedido, talvez porque o negócio dependesse essencialmente do foro eclesiástico, talvez por em tudo aquilo achar alguma complicação e indecoro para o seu governo, talvez ainda por lhe parecer justo e exemplar o castigo dado ao autor do famoso libelo.Certo é que o Portugal de 1815 fabrica em pequeno, e à lusitana, o seu Ovidio (3). Um Ovidio muito abaixo de Augusto e que escreve com os sobressaltos de uma oficina imperfeita, porém implacável no ajuste de contas (atrasadas e recentes) com a hipocrisia, a maldade, a farsa pública local e colectivamente silenciada. E aqui está como esse mesmo Portugal permite que um Testamento de D. Burro chegue e sobre para crivar de desgostos e necessidades o seu autor (pois ele só vivia de esmola da missa e de alguns sermões que escrevia aos pregadores da ilha) e arrastá-lo ao último apuro da vida (por mais dez ano – quantos resistiu até morrer, em 1825).*A colecção Contramargem desenterra com prazer este Padre Camões, e desenterra-o como pode, de um folheto póstumo de 1865 – tipografia de Dalkin e Metcalf em Boston – defeituoso como reconhece o próprio editor (português radicado nas Américas, ao que parece, mas para quem era dever primeiro dar-se «completamente ao serviço da Pátria» – diz ele em nota, no final da edição – e levar à estampa «singelamente», «como sabe», uma obra do Rev. Camões acessível, enfim, a todos os «patrícios e amigos» que tivessem gosto em lê-lo), pedindo desculpas: «alguns erros e falta de virgulação» devem-se à ausência de um «dicionário perfeito da nossa preciosa língua portuguesa» e por não estar «bem o facto de ortografia» (sic), além de ser aquela a primeira obra que em tal idioma imprime.Para além dos possíveis atropelos de Boston, tão evidentes que facilmente se corrigem, o português do Padre Camões surpreende se à ideia nos vem que escrevia sermões por encomenda e ensinou Gramática Latina. Não se trata apenas da sua pontuação, denunciadora de poucas letras (até que ponto piorada no folheto de 1865?), mas da rima, quantas vezes imperfeita, da métrica defeituosa, das «patadas» – de um Burro se trata! – em muitas regras da Gramática. Mas não faz mal, que a força do texto, o seu humor, o peso histórico da intolerância que destruiu o seu autor, resistem junto dos atropelos, e nos incitam apenas ao indispensável: actualizar a ortografia, refazer a pontuação em todos (muitos) casos em que se propõe manifestamente errada. Outras alterações, da responsabilidade desta edição e motivadas sempre por evidentes gralhas ou erros de língua portuguesa que transcendem a liberdade dos regionalismos, surgem assinaladas de forma a que o leitor possa reconstituir o texto da edição de Boston. Assim:– A introdução de uma palavra inexistente na edição anterior aparece entre parêntesis rectos e sem qualquer nota à margem direita;– A alteração de palavras por outras indica-se pelo uso dos mesmos parêntesis rectos, mas reproduzindo à direita a palavra ou palavras emendadas; sempre que a substituição deva entender-se apenas como hipótese, aparecerá em corpo fino;– A supressão de uma palavra ou palavras é indicada por um asterisco, assinalando-se à margem direita o que foi suprimido.(1) Seja embora esta a sua situação oficial, pela leitura do Testamento (nitidamente autobiográfico) e por uma nota da sua edição de 1865, ver-se-á que era filho natural de um certo Frei Manuel de S. Domingos. Do mesmo texto se depreende que em criança viveu com os avós, na Ilha do Corvo, até ao dia em que ali apareceu Frei Manuel num peditório. Dando-se a conhecer ao pai, e tocado este pela sua intligência, tomá-lo-ia à sua guarda levando-o consigo para um convento de franciscanos. Frei Manuel, simultaneamente pai e mestre, não teve relações fáceis com o filho que acabou, segundo se lê no poema, em fugir da sua tutela e procurar abrigo fora do convento.(2) Os dados biográficos que seguem colhem-se todos nos Anais da Ilha Terceira de Frederico Ferreira Drummond, vol. III, Angra do Heroísmo, 1859. As frases ou as palavras em destaque no texto são transcrições literais dessa fonte.(3) Mal decorriam três anos sobre a publicação, no Continente, de Os Burros, outra sátira de um padre (este Agostinho de Macedo) que em verso muito sujo e sem mais exemplo na literatura portuguesa visou pessoas e coisas de todos os quadrantes nacionais – indirectamente punida, também, nos meios de Lisboa.»We have made it easy for you to find a PDF Ebooks without any digging. And by having access to our ebooks online or by storing it on your computer, you have convenient answers with Testamento de D. Burro, pai dos asnos. To get started finding Testamento de D. Burro, pai dos asnos, you are right to find our website which has a comprehensive collection of manuals listed. Our library is the biggest of these that have literally hundreds of thousands of different products represented.
Description: Introdução de Aníbal Fernandes:«António José Camões, padre (exemplo de homem que o Poder destruiu, em Portugal), ilhéu nascido no Corvo, de pai incógnito (1); ao ano 1815 vigário na vila [sic] de Ponta Delgada da Ilha das Flores e autor confirmado do Testamento de D. Burro (sátira que em verso heróico atinge, muito dura, o carácter, o modo e a simplicidade dos habitantes das Lajes) (2). E agora veja-se:A ilha abalada nas suas conveniências sociais por este volumoso livro de insultos, encadernado em muitas torpezas e cheio de obscenidades (...), libelo acusatório (...), grande tecido de escárneos onde se não perdoa à honra nem ao pudor de indivíduos, e mesmo de certas famílias – ilha insinuada, desvendada em verso nas suas figuras mais populares ou de maior destaque.O Padre Camões levado a tribunal; pronunciado e metido em cela estreita da Ilha Terceira; suspenso das suas funções eclesiásticas apesar de juridicamente absolvido; a braços com os qualificadores do Santo Ofício por mandado do cabido que encontra, nos versos, matéria de censura contra a disciplina e o dogma da Igreja; levado a todas as dificuldades para prover ao seu sustento (que meios patrimoniais não possui).Absolvido, também, no Santo Ofício, o Padre Camões não regressará porém às funções de vigário (o alibi do Capítulo não deixa de ser caridoso: poupá-lo ao ódio do povo e das pessoas respeitáveis a quem ofendera da maneira sobredita), esbracejará numa luta inglória contra o poder estabelecido, desdobrando-se em inúteis requerimentos, esgotando os meios que se lhe oferecem, consumido em paciência. Como instância última recorre ao capitão-general Francisco António de Araújo, figura suprema da administração das Ilhas: não será possível, ao menos, metê-lo na regência da cadeira de Gramática Latina que já exercera por alguns anos com muito proveito da mocidade? Inflexível (...), inexorável por desagravo da moral pública ofendida e decoro das coisas da religião, o general é surdo ao pedido, talvez porque o negócio dependesse essencialmente do foro eclesiástico, talvez por em tudo aquilo achar alguma complicação e indecoro para o seu governo, talvez ainda por lhe parecer justo e exemplar o castigo dado ao autor do famoso libelo.Certo é que o Portugal de 1815 fabrica em pequeno, e à lusitana, o seu Ovidio (3). Um Ovidio muito abaixo de Augusto e que escreve com os sobressaltos de uma oficina imperfeita, porém implacável no ajuste de contas (atrasadas e recentes) com a hipocrisia, a maldade, a farsa pública local e colectivamente silenciada. E aqui está como esse mesmo Portugal permite que um Testamento de D. Burro chegue e sobre para crivar de desgostos e necessidades o seu autor (pois ele só vivia de esmola da missa e de alguns sermões que escrevia aos pregadores da ilha) e arrastá-lo ao último apuro da vida (por mais dez ano – quantos resistiu até morrer, em 1825).*A colecção Contramargem desenterra com prazer este Padre Camões, e desenterra-o como pode, de um folheto póstumo de 1865 – tipografia de Dalkin e Metcalf em Boston – defeituoso como reconhece o próprio editor (português radicado nas Américas, ao que parece, mas para quem era dever primeiro dar-se «completamente ao serviço da Pátria» – diz ele em nota, no final da edição – e levar à estampa «singelamente», «como sabe», uma obra do Rev. Camões acessível, enfim, a todos os «patrícios e amigos» que tivessem gosto em lê-lo), pedindo desculpas: «alguns erros e falta de virgulação» devem-se à ausência de um «dicionário perfeito da nossa preciosa língua portuguesa» e por não estar «bem o facto de ortografia» (sic), além de ser aquela a primeira obra que em tal idioma imprime.Para além dos possíveis atropelos de Boston, tão evidentes que facilmente se corrigem, o português do Padre Camões surpreende se à ideia nos vem que escrevia sermões por encomenda e ensinou Gramática Latina. Não se trata apenas da sua pontuação, denunciadora de poucas letras (até que ponto piorada no folheto de 1865?), mas da rima, quantas vezes imperfeita, da métrica defeituosa, das «patadas» – de um Burro se trata! – em muitas regras da Gramática. Mas não faz mal, que a força do texto, o seu humor, o peso histórico da intolerância que destruiu o seu autor, resistem junto dos atropelos, e nos incitam apenas ao indispensável: actualizar a ortografia, refazer a pontuação em todos (muitos) casos em que se propõe manifestamente errada. Outras alterações, da responsabilidade desta edição e motivadas sempre por evidentes gralhas ou erros de língua portuguesa que transcendem a liberdade dos regionalismos, surgem assinaladas de forma a que o leitor possa reconstituir o texto da edição de Boston. Assim:– A introdução de uma palavra inexistente na edição anterior aparece entre parêntesis rectos e sem qualquer nota à margem direita;– A alteração de palavras por outras indica-se pelo uso dos mesmos parêntesis rectos, mas reproduzindo à direita a palavra ou palavras emendadas; sempre que a substituição deva entender-se apenas como hipótese, aparecerá em corpo fino;– A supressão de uma palavra ou palavras é indicada por um asterisco, assinalando-se à margem direita o que foi suprimido.(1) Seja embora esta a sua situação oficial, pela leitura do Testamento (nitidamente autobiográfico) e por uma nota da sua edição de 1865, ver-se-á que era filho natural de um certo Frei Manuel de S. Domingos. Do mesmo texto se depreende que em criança viveu com os avós, na Ilha do Corvo, até ao dia em que ali apareceu Frei Manuel num peditório. Dando-se a conhecer ao pai, e tocado este pela sua intligência, tomá-lo-ia à sua guarda levando-o consigo para um convento de franciscanos. Frei Manuel, simultaneamente pai e mestre, não teve relações fáceis com o filho que acabou, segundo se lê no poema, em fugir da sua tutela e procurar abrigo fora do convento.(2) Os dados biográficos que seguem colhem-se todos nos Anais da Ilha Terceira de Frederico Ferreira Drummond, vol. III, Angra do Heroísmo, 1859. As frases ou as palavras em destaque no texto são transcrições literais dessa fonte.(3) Mal decorriam três anos sobre a publicação, no Continente, de Os Burros, outra sátira de um padre (este Agostinho de Macedo) que em verso muito sujo e sem mais exemplo na literatura portuguesa visou pessoas e coisas de todos os quadrantes nacionais – indirectamente punida, também, nos meios de Lisboa.»We have made it easy for you to find a PDF Ebooks without any digging. And by having access to our ebooks online or by storing it on your computer, you have convenient answers with Testamento de D. Burro, pai dos asnos. To get started finding Testamento de D. Burro, pai dos asnos, you are right to find our website which has a comprehensive collection of manuals listed. Our library is the biggest of these that have literally hundreds of thousands of different products represented.